17 de out de 2012

Diário do caráio.


Thom era um jovem que acabara de completar anos. De presente para si mesmo, resolveu se isolar. Saiu do país, e não contente, do continente. Precisava deixar os maus encontros para trás, sobretudo os bons. Ao chegar a solos estranhos, a representante da monarca o cumprimentou com um sorriso pesado, carregado de má vontade, estampado em todas as notas. Por vaguear sem rumo, resolveu parar em uma banca de jornal. Como que tradição, comprou suas usuais revistas para manter-se informado, principalmente as de música e de cinema. Ficou radiante por ter encontrado um exemplar da Cahiers Du Cinema naquela simples banca, havia começado a colecionar exemplares fazia pouco tempo, já possuía algumas dezenas. Ia saindo quando seus olhos avistaram ao canto alguns cadernos de capa de couro. Tinha de todos os jeitos e formatos: sintéticos, marrons, de jacaré, estilizados, vazados. Mas um em especial lhe chamou a atenção; Era de couro preto, apenas isso. Carregava uma capa simples como as páginas, até mesmo sem linha. Gostava do simples, ou pelo menos, gostava de se iludir dessa maneira. A única coisa que lhe incomodavam era os dizeres “Diário” no canto inferior direito, porém achou que seria capaz de ignorar.
Saiu do local não sem antes pegar alguns exemplares de palavras cruzadas, era viciado, desde pequeno, sua mãe lhe ensinou esse hábito. Ao continuar sua atarefada atividade de vagar pelas ruas gélidas de uma capital desconhecida, resolveu parar em um pub para espairecer um pouco. Inclusive motivos que o fizeram estar ali. Sentou ao balcão, desconfortável foi para o canto do bar, uma mesinha de dois lugares mal iluminada. Perfeito! A última coisa que queria era ser incomodado, com exceção do barman que demorava alguns minutos para atendê-lo. Depositou com cuidado as compras recentes na mesa. Analisou as capas e fitou por algum tempo a capa de couro. Sentiu-se intimidado. Nunca tivera o hábito de escrever em diário. Pensou se não estaria velho de mais para aquilo. Desistiu, colocou o pequeno caderno de lado e pegou uma revista de cinema para ler. Seu francês razoável conseguiu ler os dizeres
Découvertes dês journaux quotidiens de Jean Luc Godard”, que dizia mais ou menos “Descobertos diários de gravações de Jean Luc Godard”, aquilo lhe causou algo estranho. Godard tinha um diário... Seu ímpeto em ser grande lhe impulsionou a abrir o diário e escrever as saudações clichês:

“Querido diário. Não faço a mínima ideia do que quero lhe dizer, por isso espero que seja paciente. Entre uma cerveja e outra me abrirei com você. Espero que vá se preparando da sua maneira, pois não tem cervejas que possais beber para aguentar meus dizeres enfadonhos. Sinto-me estranho fazendo isso, você me causa algum tipo de repulsa. Mas ao mesmo tempo, me excita. Tenho-te como um amigo ausente. Quero contar-lhe coisas que nunca contei. Quero escrever de coisas que me doem. Coisas que nunca contei. Quero falar de meus pais. Por onde começo? Preciso apresentá-los? Creio que não, afinal, acabei de “te conhecer”. Vou parar de falar com você como se fosse uma entidade, sinto-me estúpido. Enfim, essa é a história de como uma relação familiar me causou cicatrizes profundas; Nasci, como toda pessoa. Cresci, como quase todas. Mentalmente, julgo-me proporcional a idade.  Emocionalmente sou um Neandertal. É o seguinte, quando um filho nasce, é depositado todo o amor guardado na dispensa afetiva dos recém papais, acho que foi assim, infelizmente não me lembro. Minha infância foi um momento bem decisivo na minha vida, comecei a me estruturar ali. Na adolescência já tinha minha base para começar a enfrentar as típicas fases, a de revolta durou um pouquinho mais do que o previsto, mas a inconsequência me acompanhava como que uma irmã. Desde cedo aprendi a ser eu. E isso, devo somente a mim, o grande responsável de tudo. 

4 de out de 2012

TCC - Trabalho de conclusão de caminhos


- Seu TCC foi ótimo, gostaria da oportunidade de agradecer?

- Sim. Na verdade, esse foi o momento que mais esperei desde quando comecei a idealizar meu projeto. E é também o momento que mais ficarei nervoso. Estudei um bom tempo, expliquei meu projeto, isso era o mínimo esperado, mas quando se trata de afetos que moram no nosso coração, isso certamente é a coisa mais difícil.
Primeiramente, quero agradecer aos que estão aqui na frente, em pé comigo. Só estou aqui, nessa posição, porque eles me levantaram. Inúmeras vezes. Um agradecimento mais que especial a um boêmio que de moribundo nada tinha. Romântico nato, se possuísse o dom, entoaria canções de deixar qualquer Paul McCartney no chinelo. Criamos juntos o conceito de amigo-irmão. A pequena smurf que fez mais que ser minha companheira de todo e qualquer trabalho, mas alguém que me aguentou e me entendeu por todos esses anos. Alguém como ela eu jamais encontraria, nem naquelas barraquinhas de chineses que você acha de tudo. Se no momento em que saio de casa e venho pra cá, deixo minha família em minha casa, o que é prontamente substituída por uma figura materna que de pequena só tem o tamanho. Possui um amor e um cuidado maior que esse campus inteiro. Meu amigo de longa data que sabe até minha pergunta secreta do facebook e acompanhou minha evolução, que foi desde visuais bizarros até a maturidade da minha personalidade. Tem também um rapaz que é uma espécie de Midas, pode fazer ouro com as mãos, ou melhor, com os dedos. Desenha de maneira como nunca vi igual. Me ajudou em momentos que ninguém saberia ajudar, estamos no mesmo barco. Outra coisa que marcou a minha estadia aqui, foram os laços criados e que perduram até hoje. Por isso agradeço a essa pessoa que fez uma pessoa especial próxima a mim ser feliz e que um dia me colocou em uma posição desarmada, mas que os receios daquela época foram desfeitos mais rápido do que o nosso famoso primeiro dia de aula. Nesse período que é também o de olimpíadas e votações, recebi vários socos de uma esquerdinha potente, de um ser humano que tive o prazer de conviver. Com uma vontade de se expressar maior que qualquer falta de graça de seus trocadilhos.
Por fim, tive professores que me orgulham de não ter desistido no meio do caminho (tentativas e pensamentos não faltaram), em especial, um alguém que era mais foda que seu topete a lá Jim Jarmusch. Que somou bastante para a minha bagagem cultural e me ensinou filosofias que fizeram da minha mísera vida de estudante, melhor. Um grande afeto espinozista. Aliás, "afetos" é a palavra certa. Um agradecimento coletivo a todos vocês que me proporcionaram os melhores encontros possíveis e aumentaram a minha pequena potência em um verdadeiro depósito de ogivas nucleares. Sem vocês eu não seria nada.
Agora infelizmente, cada um vai seguir seu caminho. Faço dessas premeditadas lágrimas, um espasmo de dor que tentei adiar ao longe desse árduo percurso.

Obrigado a todos.

1 de out de 2012

...


Pessoas normais. Normalmente sabem se expressar. Tão bonito e singelo, as vezes estúpido, eloquente... Mas de certa forma os que rodeavam o totally lost boy (lost para os íntimos) faziam isso com maestria, causava certa inveja na verdade. Mas hoje foi o dia dele, foi um grande e apertado dia. Estranho no mínimo. Aliás, um mix tão grande de emoções que causaria inveja no mais simples poeta. Para começar, a grande confusão do momento foi retomada, a divisão era enorme, e não era uma divisão da alegria. Resolveu tomar atitudes por descarrego de consciência, precisava disso. Atitudes tomadas, era de se esperar uma fraqueza imensa. A pequena Smurf estava lá, como sempre estivera. Voltando a essas pessoas normais que sabem se expressar, elas choram. Uma incrível arte dominada por uma parcela estratosférica, mas não pelo lost boy. Em raras ocasiões, quando o liquido teimava em querer escapar, uma pesada mão logo os esmagava nas curvas de sua face. Hoje elas teimaram novamente, e na presença de alguém, o que foi mais bizarro. Suas lágrimas são tímidas. Também pudera, com tamanho esforço para contê-las, seria o mínimo a ser esperado. Mas dessa vez não sentiram o peso da mão fria, ao invés disso, um abraço se encarregou de seca-las, tão significativo, tão apertado, tão necessário naquele momento... Aquele que se esforçava ao máximo para estampar um sorriso naqueles que o cercam, por um momento, trouxe tristeza.
Não muito longe dali, um boêmio moribundo calado. É incrível a capacidade do lost boy de perceber suas fraquezas, se preocupa, mas não sabe abordar. Queria dar um abraço, mas estava despedaçado de mais, um abraço o quebraria, fácil. Enfim, era hora da rotineira viagem dentro do Yellow Submarine. Dois momentos, primeiro, a pequena Smurf descarrega uma lagoa de sentimentalismo no aparato do pequeno-grande garoto. Se conteve. Estava farto de sentimentalismo por aquele dia. No momento seguinte, é a vez do boêmio. Avassalador, sutil como uma bigorna, as tímidas voltaram, desavergonhadas, com força total. Como se tivessem aberto comportas de uma usina, as lágrimas dispararam. Forte, intenso. Não as culpo, alguns meses presas, durou e como durou. Toda a viagem lisérgica de volta pra casa, uma volta apertada, o corpo físico voltou, o espírito vaga, não sei por onde...

22 de set de 2012

Em uma cidade de interior inabitada de um estado sem importância, um garoto de face dura e semblante soturno vagava por diretrizes inóspitas de pensamentos exacerbados. Contemplava o silêncio de forma ofensiva, sentia-se desqualificado para todo e qualquer papel no mundo, entregou-se ao conformismo. Fazia coisas que não gostava e projetos que jamais iria terminar, na maioria das vezes, nem começar. De planos utópicos fazia coleção. E as dores que a vida lhe ofereceu eram guardadas em seu quarto vazio que, em uma visão semiótica, representava solidão. Descobriu o poder do ser humano, imperfeito. Dos perfeitos tinha nojo, para o inferno. Vasculhou as maiores podridões que o mundo poderia guardar, depositada em seus seres, humanos... Tornou-se mestre nas fraquezas alheias. Explorava como ninguém as feridas abertas que apenas um esculpir do tempo poderiam cessar. Torturava em forma de nostalgia, massacrava em forma de saudade e matava em forma de amor. Seus disfarces eram sutis, dignos de um verdadeiro mestre. Suas razões eram desconhecidas, assim como seus prazeres. Detestava as desnecessidades, gostava de ser pragmático... E letal. Inimigo da misericórdia, espião do desespero. Em uma de suas provações, cortou a corda que impedia os pés de pairarem no ar. Era de mais para si, tanto sofrimento. A intensidade dos olhos o intimidou. Encarava como um espasmo mortal de podridão universal na qual vivia, sem resquício de luz que conduzia a liberdade. Vertiginoso, caiu... Em um plano astral, no salão negro, no canto mais escuro da sua mente, em uma viagem metalinguística. Não era possível criar sentidos, a essência havia se perdido, as potências não poderiam mais ser aumentadas e os bons encontros ficaram na nostalgia que, por vezes, era uma de suas poderosas armas. Da saudade não provou, mas do amor... Sofreu em dobro tudo que havia causado, o pior dos castigos havia caído sobre seus pensamentos, como um raio dilacerando os neurônios restantes. A maçã intocada, tão saborosa e vermelha, com uma barreira moral gigante que isolava o seu conquistador em potencial. Quando se iludiu com a ideia de se aproximar, a história contabilizava números surreais de vermes vaiando o até então “livre arbítrio”. Tão suja raça que cria, descria e discrimina. Que espaço-tempo mais estúpido era esse que não se podia ter o que se almejava? Qual a servidão da utopia então?
Então, o passar do tempo revelou que jamais existira. Um mal entendido, assim como a terra ter sida categorizada como quadrada. Pouco importava, no fim talvez, esse era um dos seus maiores desejos.
Vai saber...

17 de mai de 2012

18-05-1980




Frio insólito que fazes em minha rua, em especial, meu quarto congela. Minha respiração ofega ao ritmo em que meus nervos se enrijecem, a cervical experimenta calafrios de diferentes intensidades e a água salgada ao saltar frenética dos meus olhos anuncia o desespero e a desordem. O pacote a frente de minhas pernas cruzadas sobre minha cama deixava algumas fotos escaparem, em meu campo de visão difuso, encontrava-se registros de um amigo, de um bom amigo. Junto às fotografias se encontrava um cartão, havia me mandado em momentos difíceis de desilusões afetivas:


            “Tudo que é grande passa longe da praça pública e da glória. Longe da praça pública e da glória viveram sempre os inventores de valores novos. Foge, meu amigo, para o teu isolamento, vejo-te aqui aguilhão por moscas venenosas.”


Sua forma de me proteger, sutil e subjetiva, viraria seu lema mais tarde, o isolamento que tanto me oferecia, seria seu melhor companheiro e amigo, até melhor amigo que eu...  Ao som de Bowie, atropela meus pensamentos uma memória em particular, quando assisti, meu saudoso amigo defronte a mim, ter um ataque epilético. A morte o parecia tão amiga, naquele momento parecia que espreitava por buscar uma relação mais intensa, mais douradora, perpétua por assim dizer.  Era assustador, não sabia o que fazer, a ideia de nos separarmos era impensável. Tudo se normalizou, até o momento que seus pés, pairavam no ar, de um lado para o outro dançavam no ritmo em que o vento regia, nada comparado as suas danças frenéticas em palco, pelo contrário, era suave como a melodia de suas melhores baladas.
Meu saudoso amigo, sei que estás ao meu lado, sua visita hoje é especial, dessa vez não veio me acompanhar em momentos de solidão, veio, da sua forma, se desculpar pelo egoísmo de partir e não pensar nos demais que o amam. Mas não o culpo, você perdeu o controle...


9 de mai de 2012

7 Minutos


  

O Sr Marlboro estava sentado em um pub inglês de iluminação opaca e arquitetura rústica, esperava pelo Sr Dunhill para jogar conversa fora depois de um dia cheio de trabalho. Os dois eram ativistas hipócritas que organizavam marchas em redes sociais para uma política antitabaco. O Sr Dunhill – Carlton como gostava de ser chamado – chegou e pediu mais uma Guiness e um copo, precisava relaxar após um dia cansativo na câmara. Beberam-na toda e foram para a área de fumantes, lá Carlton pediu um cigarro.
- Marl, me arruma um cigarro ai, o meu acabou.
- Tome - disse o Sr Marlboro.
Carlton logo recusou ao ver o maço e comprou um para si.
- Não sei por que você gosta desse de pseudointelectuais, é nojento.
Sr Marlboro indiferente puxou um humano do maço pelos fios de cabelo e colocou na boca, entremeio a fumaças disse:
- Gosto de ver a espessura da fumaça, é como se a psique que eles tanto acreditam possuir fosse mais espessa devido à autoconfiança de se sentirem superiores.
- Pois eu gostava mais dos políticos, se for para morrer, que pegue um forte, a refrescância da corrupção é realmente muito boa, mas hoje não estou me sentindo bem, vou fumar um vegetariano – e puxou um humano de cabelos verdes do maço, acendendo-o bem na cabeça.
Dentro do maço, os humanos que restavam espremidos bracejavam:
- Sabe que quando entrei na agência eu sonhava em ser um humano grande e servir a diplomatas bem sucedidos, ser um daqueles que, acompanhado de um bom whiskey, seriamos o complemento perfeito para negócios importantes a serem fechados, mas o sistema me enganou. – disse o humano vegetariano triste.
- Essa é a nossa chance de escapar, quando ele pegar o próximo da fila, pularemos pela fresta como se ele nos tivesse deixado cair, daqui, marcharemos para o consulado mais próximo, não me importa se será do Azerbaijão ou Índia, seremos importantes.
E assim fizeram. Logo que Carlton pegou mais um - o próximo da fila- pularam do maço três humanos, em uma queda nada confortável, dois deles rolaram para debaixo do balcão, mas o outro fora avistado pelo ativista que logo o apanhou e o colocou novamente para dentro do maço.
- Vamos sair daqui enquanto podemos – E assim fizeram, correram para a porta, ríspidos como um raio e saíram pelo mundo afora.
O sol de imediato os cegou porque não viam luz de dentro de seus apertados maços, ao retomar a visão um deles teve uma ideia:
- Ta vendo aquela poça? Vamos rolar ali dentro, ninguém gosta de humanos molhados, assim nos livraremos de mendigos e andarilhos que pegam bitucas no chão. – E assim o fizeram, ficaram ensopados.
Marcharam avenida adentro e como suas vidas curtas se resumiam a fábrica de produção e logo em seguida o maço, não tinham o menor senso de direção e perspectiva. Estavam em uma cidade industrial, e tudo era uma grande imensidão para aqueles pobres e pequenos humanos lutando pelos seus sonhos.
- Lembra quando estávamos no balcão do Pub? Sentaram dois empresários e ao conversar notamos que eles tinham as vozes grossas, e empresários e diplomatas são quase a mesma coisa não é? Vamos procurar por pessoas de vozes grossas.
- Perfeito, você é um gênio.
E assim o fizeram, andaram sem deixar se abater pelo calor escaldante e o movimento frenético das pessoas em passo acelerado para viver suas vidas conformistas. Passaram por grandes monumentos feitos para cigarros que foram importantes para a sociedade, mas afoitos, não perceberam a beleza ao seu redor. Continuavam pelo sinuoso trajeto, a esperança os guiava de forma religiosa, a fé de um futuro melhor era o combustível de toda a jornada. Andaram por horas, e a penumbra já caía, por mais que a iminência desejava fazê-los prosseguir, seus corpos já não aguentavam mais, era triste perceber que seus sonhos estavam longe e inalcançáveis. Na cidade que nunca para, o movimento já diminuía e o frio tomava conta.
- Precisamos nos aquecer – Um humano disse a outro, e ao avistar uma nota de vinte reais correram para baixo dela e se enrolaram... O calor humano iria os aquecer.
Toda vida seus companheiros de maços eram trocados por aquele pedaço de papel que continha algum valor, contudo, mal sabiam do que se tratava.
Do outro lado da rua, dois cigarros bem vestidos esperavam o sinal fechar para atravessar a rua. Um deles tinha a cinza bem penteada em forma de um topete, e uma jaqueta de couro, o outro usava uma espécie de cinza em franja e ternos bem cortados, como se o mod e o rock tivessem feito as pazes na representação de dois rapazes jovens que buscavam por prazeres excessivos. Ao atravessar a rua, um deles, o mod, avistou a nota de vinte reais e sem pestanejar, apanhou e logo mostrou para o amigo.
- Hoje é meu dia de sorte – disse enquanto desenrolava a nota a procura de outras que estariam juntas.
Ao ver dois humanos enrolados, colocou-os no campo de visão do amigo.
- Joga isso fora, não sabemos da onde veio. – parecia o mais sensato a se fazer, mas interpretou aquilo como um presságio, um sinal, e os guardou no bolso até segunda ordem.
Continuaram seu trajeto, os dois humanos dormiam confortáveis na calça levi’s do cigarro, não tinham consciência da onde iriam. Pararam defronte a uma casa, e tocaram a campainha, mais dois amigos saíram, um deles tinha um aspecto introspectivo, vestia roupas soberbas e mórbidas, sempre pretas, como se estivesse em depressão contínua, o outro usava óculos redondos e tinha os cabelos compridos. Os quatro seguiam seu caminho despreocupados, não andaram muito e chegaram a seu destino, a casa do rocker.
Aparentemente vivia sozinho, os outros três logo abriram a geladeira e se serviram de cerveja.
- E aí, vamos começar?  - perguntou o rapaz de cabelos longos.
Os outros afirmaram com seus semblantes excitados.
- Vocês sabem o que fazer, tem que ser bem sincronizado, e quando der certo, vamos nos sentar no centro.
E assim o fizeram, cada um ocupou um canto da sala onde havia um tocador de CD.
- Um, dois, três e já. – Ordenou o mod.
Foram certeiros de primeira, sentaram ao centro e fecharam os olhos...
A primeira música já estava ficando fraca quando o rapaz lembrou dos humanos em seu bolso, seria uma forma de intensificar a experiência, logo os pegou e acendeu um, o outro amigo acendeu o outro, e os quatro iriam revezando.
Quando a chama tocou os cabelos dos humanos eles logo despertaram, e ao ouvir a voz de um dos amigos a perguntar onde haviam arrumado aquele cigarro logo pensaram “são os diplomatas” pois o rapaz tinha a voz grossa. Felizes, fecharam os olhos e esperaram por aquele momento tão aguardado, nem verificaram se havia um whiskey acompanhando, a cada tragada, os humanos sentiam sua alma se transformar em algo novo, seriam cinzas realizadas. Tudo o que puderam ouvir foi:
- Track number two. This is CD number one, number two, number three and number four...

16 de abr de 2012

Sem café

A única certeza que eu tinha dia após dia era que café a me esperar estava: preto, forte, sem açúcar.
             O dia que a garrafa secar, será um dia triste.

15 de abr de 2012

Track number 2 - This is CD number 1

-Tenho sede.
-Entre, sente-se.

-Não tenho águas, aquíferos, mundanos, encharcas as estradas.
-Um pedaço de melancia serve.

6 de mar de 2012

Amigos e Vinis


Muitos tem como maiores conquistas da vida, seus bens materiais, outros tem os amigos em prioridade, existem muitos que devem tudo a família...

Lembro-me de uma memória peculiar, uma vez ao visitar a cidade da minha tia e irmã, por conta do ócio fui ao centro com o meu irmão. Lá procuramos artigos automobilísticos para seu carro e paramos para um sorvete. Na volta, tomamos um caminho diferente que havíamos vindo e ao passar por uma loja meu olhar logo percorreu seu interior, vários vinis, dvd's, livros, cd's, revistas e afins, não precisei nem ler o nome da loja para ter certeza do que era. Nunca havia entrado em um sebo antes, e persuadir meu irmão a parar lá por alguns minutos não foi nada fácil, pois venho de uma família com ideias diferentes quando se trata de cultura. Tenho pais que não acham que valha a pena comprar CD's e DVD's porque segundo eles "tem tudo na internet". Sorte que não têm nenhuma objeção contra livros, seria de mais... Tenho irmãos que não compartilham o mesmos gostos que o meu, (o máximo de consenso cultural que chegamos foi eu gostar da trilha sonora de Dirty Dancing que minha irmã é viciada). Mas sempre nos respeitamos quanto a isso, aliás meu pai foi um grande protagonista nessa história toda de formar minha bagagem cultural. Lembro-me que as primeiras canções dos Beatles eu ouvi de um DVD daqueles de coletânea que reúne os grandes sucessos do século, ou décadas, não me lembro ao certo. Haviam três canções dos Beatles e depois de voltá-las pressionando o repeat no controle remoto resolvi conhecê-los melhor, a fascinação veio de imediato.
Enfim, depois de olhar prateleiras e prateleiras com coisas que me enchiam os olhos, ver títulos e capas de livros que me valeriam algumas horas perdidas e DVD's de shows e filmes incríveis voltei para a sessão de vinis. Passei por uma fileira cuidadosamente. Jimi Hendrix, David Bowie, Rolling Stones e vários desses que hoje em dia me fazem querer voltar lá e rezar para que ainda estejam lá. Parei por um segundo pelo Shaved Fish, a primeira coletânea do John Lennon cuja a capa está ilustrando este post. Havia sido um grande fiel a carreira dos Beatles, entretanto era um ateu quando se tratava das carreiras solos dos membros da banda. Não teria nada melhor do que começar em grande estilo por uma coletânea do John Lennon. Estava sem dinheiro e implorei ao meu irmão para comprar com a permuta que iria pagá-lo depois ou até mesmo lavar o seu carro, o que o fez aceitar na hora. Sai contente da loja, aaah, vocês não tem noção.
Sempre gostei muito dessa cidade em questão, gostava do fato de respirar aquele ar, havia algo do diferente que não sei explicar, contudo, a minha vontade de ir embora para escutar aquele vinil era maior que qualquer excitamento, portanto adiei a minha volta. Chegando em casa fui seco escutá-lo, mas a má notícia que o tocador de vinil do rádio dos meus pais não funcionava mais, deve ter sido pela falta de uso depois de tantos anos. Fiquei triste, me arrependi de ter voltado para a casa, eis que lembrei que meu avô havia um tocador de vinil velho, e tentei lembrar qual seria o paradeiro daquilo quando ele faleceu. Estava na casa da minha irmã, lembrei no segundo momento, fui correndo pra lá, lembro-me que ela não estava em casa e eu pulei a janela do quarto do meu sobrinho, liguei o tocador, coloquei o vinil, delicadamente, com medo, coloquei a agulha sobre o vinil e o som emitido foi dos anjos, êxtase total. Me lembro de ter ouvido incontáveis vezes, nunca fui de visitar minha irmã, mas agora eu tinha um motivo.


Conheci alguém com que poderia falar sobre música, especificamente Beatles, outro apaixonado. Que me disse inúmeras curiosidades e me ajudou nessa empreitada, um amigo que gostava de Beatles, era o máximo, um terreno totalmente inexplorado e novo, minha relação com música mais clássica, para não dizer velha, era estreita e quase invisível, nos falávamos todos os dias. Quando recebi a notícia que iria se mudar para tentar ter um futuro melhor foi estranho, não queria perder aquilo, tinha se tornado meu melhor amigo...  Entretanto, sempre fui péssimo para externar certos sentimentos, e tenho a sensação que isso passou meio despercebido. Não ao todo, porque gosto de ser sútil, direto em minhas subjetividades. Quando foi o dia da despedida, pensei que tinha que significar algo, não podia deixar aquela amizade morrer sem lembranças. Naquela altura, aquele vinil era a coisa mais rara que eu possuía, pensar dessa maneira deixava confortável, ouvir algo produzido por eles me fazia sentir uma conexão, mesmo que indiretamente, com os artistas. Como se o fato de eu possuir aquele vinil, eu estaria fazendo parte de uma estatística, gostava de procurar coisas para me fazer sentir especial, então o fato de eu ser um cara que recebeu um vinil de uma distribuidora que primeiramente passou por um processo de gravação em uma gravadora que teve nos estúdios tais cantores me faziam sentir assim... Totalmente louco, eu sei.
Cheguei em sua casa, de imediato entreguei o vinil, ele me deu um abraço e disse:

- Mas cara, é raro.
- Você também é.

E nos abraçamos. Foi estranho, já havia tido despedidas em minha vida, mas não de alguém tão significativo que modificou seus ideais para continuar sendo meu amigo, aquilo tinha um peso imenso para mim. Penso que o vinil não tenha sido uma lembrança à altura, mas simbolicamente, era raro, em um contexto inimaginável. Hoje em dia mantemos pouco contato, online apenas, e demoramos a nos encontrar, mas quando acontece são encontros intensos, conversas específicas, pensamentos e acompanhamentos auto-destrutíveis. A distância me fez pensar que essa amizade havia acabado, o fato de não ter essa relação pessoal e física me fez acreditar que já tinha dado o que tinha que dar. Mas hoje entendo que essa distância apenas fortalece os encontros que estão por vir. Quando nos falamos, perguntamos da vida um do outro, queremos saber, principalmente dos êxitos, é o que eu mais gosto de ouvir/ler, porque sempre torci muito pelo seu sucesso que é inevitável.

Foi um momento e tanto, afinal a vinda é feita de encontros e afetos. A você meu grande amigo, eu dedico esse texto, e espero que a cada vez que você olhar esse vinil, não importa o lugar que ele esteja, lembre de todos os nossos encontros e conversas. Ainda desejo-lhe o maior de todos os sucessos.

Ps: If I Fell é de que álbum mesmo?

20 de fev de 2012

A favor da pena de morte

Aviso: Esse post é metaforicamente ilustrativo, qualquer apologia a violência ou coisas do gênero deverá imediatamente ser interpretado como assuntos subjetivos e metafóricos.

Lembro-me dos primeiros anos de escola quando todos os dias a professora nos perguntava sobre algo cuja a resposta resultaria em ir para casa mais cedo. Certa vez nos perguntou se eramos a favor ou contra a pena de morte, e como sempre selecionou alguns alunos para responder. Fiquei de fora, a princípio achei ruim pois eu era bem participativo, mais do que hoje em dia, cheio de opiniões, mas dessa vez eu não tinha nenhuma, não sabia o que responderia caso a professora chamasse pelo meu nome. Não poderia me safar dessa situação com apenas um "sim" ou "não", pois a safada nos exigia uma justificativa. Pois veja bem, com seis, sete ou oito anos no máximo tínhamos que ter uma opinião formada pelos assuntos da atualidade e dizer o porque sustentávamos tal posição... Prematuridade, tsc.

Pois bem, anos (alguns) se passaram e finalmente cheguei a um consenso sobre o assunto, de uma forma mais categórica, cultural e menos pragmática, desculpem pela excentricidade. Sigo, com cultos e cortejos, a opinião de que "o que era para estar morto tem de morrer". Livre das generalizações ressalto que não faz sentido cultivarmos coisas supostamente mortas.

É um assunto um tanto quanto aleatório, até me surpreendi no trajeto até essa ideia, mas como vivemos em um mundo de "nuvens tecnológicas" nada mais justo que um assunto interligar-se com outro e formar essa rede de pensamento. Contudo, o assunto que originou essa cadeia de pensamentos foi a notícia que Adam Lambert será o novo vocalista do Queen. Não existem razões maiores ou motivos que eu possa exemplificar para tal descontentamento, apenas acho que a banda foi icônica por seu vocalista que se consagrou por ser um dos maiores vocais do Rock 'n' Roll, já tentaram, sem sucesso, substitui-lo e não aprenderam com o erro, agora tentarão com um vocal que desta vez não tentará copiar o do primeiro vocalista, porém não tem nada a ver com a banda. Sem contar que existe toda uma aura de legado, por trás de tudo, de fazer história, Freddie Mercury certamente deixou a vida com ambos muito bem estruturados, mas sua banda parece vir com uma bola de concreto para derrubar tudo que foi construido. É como tentar ressuscitar os Beatles com um Noel Gallagher da vida, cantando com uma voz nasal e incorporando o espírito Peace and Love do John. Guilhotina para o Queen.

"To sing this song takes 3 humans or one Freddie Mercury."  

Para a forca todos aqueles que não somam para a sua vida, pessimistas, supostos amigos, fofoqueiros e filhos da puta em geral. Um tiro certeiro no cérebro para os sentimentos remoídos, incertezas, inseguranças e arrependimentos. Um copo de veneno bem servido para as coisas que não deram certo, e ao túmulo uma rosa simbolizando o recomeço. Para o alto mar cheio de tubarões, os erros das nossas vidas, que estes predadores do mar não deixem restar nem sombra de ressentimento ou mágoas. Um empurrão para a frente de um trem em alta velocidade especialmente para os que só sabem te deixar para baixo, que duvidam do seu sucesso, que para cada sete copas que jogamos eles lançam um zap, tentam ser melhores que nós, não sabem subir sem rebaixar, para estes, eu tenho o enorme prazer de puxar o gatilho sem ressentimento, e disparar um cartucho inteiro para me certificar que estão devidamente mortos.

Sobre a minha opinião sobre o verdadeiro debate da pena de morte ainda não tenho posição formada, e estou bem assim, entretanto, adquiri um amor próprio tão imenso que qualquer técnica de assassinato seria banal. Em caso de morte, o ressuscitaria em dois tempos.


Cheers.

15 de fev de 2012

Open Mind.

- Ah seu curso é fácil.
- Tirar nota máxima é obrigatório no seu curso.
- Publicidade é curso pra pessoa que não sabe o que quer da vida.
- Você vai morrer de fome.

Essas são apenas algumas coisas que costumo ouvir constantemente diretamente para mim ou para os meus amigos de curso. Como se já não bastasse ser pedante e julgar ainda apresentam argumentos como se já tivessem o diploma de comunicação social na parede. Estes normalmente são aqueles que julgam grosseiramente generalizando os fatos. São os que definem publicidade e propaganda em: "faz uns logos legais, uns vídeos e promove as marcas", e pensam que nós chegamos no primeiro dia e estudamos photoshop, corel draw, premiere e que mandamos ver nas aulas práticas, não tem nem sombra de ideia que talvez estudamos várias coisas relacionadas diretamente à comunicação, que acrescentamos a nossa bagagem cultural com aulas artísticas, que desenvolvemos senso crítico e olhar estético mais apurado... Porque né? Julgar é bem mais fácil, mais rápido e mais eficaz na parte de tentar se sobressair com aquilo que faz. Eu fico pensando qual o propósito disso, será que são convictos que com isso as pessoas vão parar de fazer faculdade ou mudar de curso? Têm é que parar para pensar em suas vidas, e resolvê-las, porque os bem resolvidos da histórias não são vocês.
Estes também não durariam duas aulas de Teorias da Comunicação porque são mente fechada de mais para saber sair do seus ideias e beber em outras fontes. Na terceira aula de Linguagem e Expressão em Arte sairiam da sala reclamando o quão tediosa é a aula, o quão desnecessário é estudar pinturas, movimentos culturais e a arte em si, não se permitiriam abrir-se e acumular bagagem cultural. Mas acima de tudo, estas são pessoas que não estão satisfeitas com seu curso, ou tem o ego inflado de mais pensando que sua profissão será de maior ajuda ao mundo do que a outra. Acham que dinheiro é sinônimo de realização profissional e são as mesmas que ostentam objetos e marcas como forma de elevação de status. Pois bem, prefiro viver uma vida nos limites da conformidade do que fazer algo mecânico e calculado, prefiro milhões de vezes ir para uma agência fazer o que vocês acham que os profissionais do campo fazem do que ser mais um tijolo na parede, mais um apertando parafuso, porque no fim das contas eu vou ser aquele que vai responder "adoro minha profissão e me sinto realizado" quando alguém perguntar sobre, vou deitar na cama com lembranças dos projetos que realizei e do trajeto em grupo que aconteceu, relembrar histórias e momentos de uma fase da minha vida que é marcada por realização interior.

Desabafo - Lucas Guarniéri

13 de fev de 2012

White lodge

Lembro-me de uma memória da infância.

A turma da primeira série se preparava para um passeio por uma trilha de macacos, seria minha primeira vez lá, mas eu estava enganado... Ao sair para brincar de tarde no dia anterior, reuni com os amigos e ao comentar sobre o passeio disse sem hesitação que já havia ido a tal trilha com meu pai. Eles me perguntaram como era e expliquei com detalhes sobre a trilha, sobre a fauna e flora e até sobre a fisionomia dos macacos. Contei que no fim do passeio meu pai e eu colocamos várias mangas no chão aonde os macacos rapidamente vieram e comeram com uma vontade sem igual.
Chegou o tal dia e tudo aconteceu como descrevi, as trilhas eram divididas em três, cada uma com 3 km cada, totalizando em 9 km andados aquela tarde. Passamos por formigas enormes como eu havia dito, nas copas das maiores árvores vimos micos-leões pular de galho em galho com tal maestria que deixaria qualquer circense com vontade de regredir na evolução humana. Ao fim do dia, as mangas amontoadas, mas dessa vez com a ajuda dos inspetores e professores, até a convicção com que os animais comiam as frutas era parecida com a vez que havia ido com meu pai...
Cheguei em casa, à mesa com meus pais e me perguntaram como havia sido o passeio, e eu de prontidão respondi:
- Foi muito bom, mas foi um pouco sem graça porque já tinha ido lá com o senhor - e olhei em direção ao meu pai.
Meu pai deu uma olhada de canto de olho para minha mãe e os dois olharam para mim:
- Mas eu nunca fui lá com você filho - disse meu pai.

E desde então, não sei distinguir realidade de sonhos...

História verdadeira - Lucas Guarniéri 

12 de fev de 2012

Interpretação - Idioteque

Interpretação que fiz da música Idioteque do Radiohead para o fórum do Radiohead Brasil, confira a letra aqui e a música aqui.

Tentei linkar o título da música com a música em si e criei uma interpretação. Não sei viajei muito, porém creio eu que essa seja a graça das interpretações, uma vez que não teremos certeza a não ser que saibamos dos próprios compositores, temos essa leveza de interpretar... Vamos lá.

Women and children first
And children first
And children...
I'll laugh until my head comes off

Nessa parte aqui, eu interpretei como um plano sequência, o fato de que criou-se uma hierarquia de importância de seres vivos em circunstâncias catastróficas é tão ridícula que ele ria desses "idiotas" que criaram ou obedeceram a essa regra. Se formos parar pra pensar essa regra estabelecida não tem sentido uma vez que a maioria de nós busca uma sociedade universal igualitária, sem distinções de sexo ou idade, quando se trata de salvar vidas, somos todos humanos, com histórias, família e vidas que deixaríamos para trás caso morrêssemos.

E em geral, eu creio que a música não fala de uma catástrofe ou algum acontecimento em específico, acho que seja uma coisa mais a longo prazo, como se a humanidade estivesse destruindo a humanidade em uma metalinguagem da destruição, apocalíptica.

We're not scaremongering
This is really happening, happening
We're not scaremongering
This is really happening, happening

Não estamos "scaremongering" ou alarmistas porque é uma coisa que não acontece de imediato, então a humanidade não é alarmista por não ser coisa do aqui e agora.
"This is really happening" apesar de ignorarmos, está acontecendo, em uma velocidade imperceptível, porém está acontecendo. Ficariamos alarmistas e saberíamos que está mesmo acontecendo se acontecesse terremotos simultâneos no mundo inteiro, por exemplo.

E quando diz:

Mobiles working
Mobiles chirping
Take the money and run
Take the money and run
Take the money...

Pega o dinheiro e corre, vá viver sua vida, gaste, aproveite enquanto pode, goze do melhor que a vida te oferece. Como se fosse um "viva cada dia como se fosse o último" clichê, porém representa essa ideia da urgência de se viver.

11 de fev de 2012

Só.

Que junto do arrepio
venha o espirito da nostalgia
espero que não seja o frio
a me tirar essa alegria

Que junto do solo sagrado
me venha a sabedoria
de ser bem interpretado
aquilo que dizia a biblia

Que da ingenuidade da virgem
eu tire o potencial do pecado
que se exprema a libidinagem
e faça um suco adociado

Memórias de um saudosita, santo e pecador.

Lucas Guarniéri

8 de fev de 2012

O intermediário (Parte 6) Final

Atenção: Se chegou aqui pela home do blog ou pelas postagens anteriores e está interessado em ler a história na íntegra clique aqui para ir para o primeiro post. Depois clique em "Visualizar postagens antigas" para ler na ordem. 

Assim que a música acabou com o fade, o menino respirou fundo e suas pupilas se dilataram, chacoalhou a cabeça como se tivesse se livrado de um transe e disse:

-Esse é legal, mas muito triste, não gostei muito, prefiro os outros dois que ouvi primeiro.
O homem sem entender nada e muito confuso com a reação do menino ficou calado, mal sabia ele que seus olhos tinham se arregalado em uma dimensão fora do normal. Achou estar sendo punido do que fez, como se a voz de um anjo justiceiro falasse sobre a voz inocente daquela criança, para se certificar o homem perguntou ao menino:
- O que você achou da faixa New Dawn Fades mesmo? Eu não ouvi direito, do que se trata?
E o menino respondeu de prontidão:
- O que? Não entendi, do que você ta falando?

O homem virou as costas, o desespero tomou conta de seu corpo, seguido por um vazio enorme, tudo fazia sentido, pela primeira vez se arrependeu do que havia feito. Entendeu que havia cometido um grande erro...
Um clarão vinha da cabine, uma força de dentro de seu corpo dizia para o homem seguir até lá. Como se fosse obrigado, seus pés, um de cada vez trilharam o caminho até lá, quando chegou na porta, o menino que via a cena assustado só teve algo a perguntar:

-HEY, qual é seu nome?

O homem virou a cabeça em câmera lenta para a direita e quando seu queixo encontrou com seu ombro ele sussurrou:



- Curtis...

O intermediário (Parte 5)

----New Dawn Fades----
-Essa é sobre mudanças, e sobre liberdade. Esse “so you say” no final da frase “a loaded gun won’t set you free” nos da a entender que a morte é bem vinda, se assim nos libertar.

----She’s Lost Control---
-Eu acho que aqui a mulher dele percebeu que ele pulou a cerca e ficou muito nervosa – o menino solta uma risada gostosa de ouvir.

----Shadowplay----
-Essa é mais animada, apesar do título. Tenho a impressão de que já ouvi um cover dela de uma banda, só que era um pouco mais eletrônico. Mas o ritmo animado é só uma máscara para uma letra soberba.

----Wilderness----
-Essa é a mais pesada, uma critica direta a religião, que a acusa de destruir o conhecimento. É a que transmite mais peso, talvez por ter sangue de Jesus no meio.

----Interzone----
-Essa é bem punk, nem parece estar em um álbum soberbo e profundo, achei desconexa.

----I Remember Nothing-----
-Essa é bem pessoal a quem a escreveu, mas tem momentos que acho que é para sua esposa novamente, como uma jaula, como se a proximidade criasse uma distancia insuportável.

A música tinha alguns minutos ainda, e o menino então complementou:

- É a última, é um álbum muito bom, intenso e misterioso, melancólico, um desabafo, problemas, crises existenciais. Creio que quem escreveu as letras passava por um estado mental difícil, se viu várias vezes entre a vida e a morte, mas pelo que eu pude entender eu acho que ele conseguiu passar por cima de tudo isso... creio que o pior não aconteceu.

(...)

O intermediário (Parte 4)

----Disorder-----
-Hmmm, é mais pesado, tem uma atmosfera mais sombria do que os outros dois que eu ouvi. – disse o garoto tentando buscar explicações racionais para o que estava ouvindo. – imagino que essa música se trate da nossa posição na sociedade em alguns momentos, somos perdidos.
O homem não conseguia emitir som algum, era inacreditável o fato de um menino daquela idade ter uma mente daquelas e se colocar na posição de resenhar um álbum ali, a primeira ouvida.

----Day of the Lords----
- Essa é mais sensível, melancólica, mas ouso dizer que ainda se trata da sociedade, como um campo de concentração, onde só os fortes sobrevivem.
Ao ouvir a última parte dessa sentença sentiu uma pontada profunda no coração, uma vergonha imensa como se tivesse fugido de algo, como se tivesse fracassado em sua missão. Não estava se sentindo bem na presença daquele menino. Pôs se de pé por reflexo e saiu da cabine por um momento, o menino o seguiu com os olhos. O homem imóvel parecia não agüentar aquilo, quis sair correndo, mas sabia que tinha um preço a pagar, tinha que ouvir aquilo... Voltou para a cabine.

----Candidate----
-Essa pareça que a pessoa narrada estava dividida entre dois amores e pela culpa sentida... “It’s Just second nature” olha, a frase que você me disse a pouco, você é um grande fã da banda?
O homem fez que não com a cabeça.
- Não, foi apenas uma coincidência.

----Insight-----
-Aaah, essa eu já acho que o homem está superando a culpa, quando ele diz “but I don’t care anymore” ele mostra certa indiferença não é? Tem certa nostalgia também.
O homem parecia ter perdido alguns sentidos, apenas fitava o garoto tentando buscar em seus olhos a resposta de uma alma tão profunda.

(...)

O intermediário (Parte 3)

 O garoto hesitou por um momento, aquilo não parecia certo, porém a experiência havia sido mágica, precisava daquilo, seu corpo e mente necessitavam de algo novo. Deu meia volta e pôs se a olhar os vinis novamente. Olhou para o lado e viu o homem com o mesmo vinil de capa preta nas mãos:

- Qual é este que você esta segurando? – perguntou o menino.
-Apenas um álbum qualquer, sem importância.
- Essa capa é legal, me lembra montanhas.
- Na verdade, a capa se trata da freqüência capturada por um medidor de pulso de uma estrela morta.
 O menino ergueu as sobrancelhas em tom de surpresa.
- E esse nome? Do que se trata? Joy Division... A divisão da alegria, o que será que o criador do nome quis dizer com isso?
- Joy Division era o nome dado pelos nazistas pela repartição que continha mulheres judias, eles iam lá e se divertiam.
- Eu gosto de histórias assim, acho que nada tem que ser feito superficialmente, se não tem um porque ou um pretexto, não é válido.

O homem olhou o garoto com seus olhos preto como a penumbra das noites mais escuras.

-Posso ouvi-lo? – Perguntou o menino fazendo um gesto para que o homem lhe entregasse o vinil.
O homem hesitou e parou por alguns segundos, seu rosto perdeu a expressão total e lentamente fez o trajeto entre sua mão e a do garoto. Apressado o menino pegou o álbum de sua mão e, pôs se de prontidão a caminho da cabine. O homem não sabia o que fazer, apenas o seguiu e sentou na frente do garoto com uma mesa a separar-los.
- Pensando bem, tem outros discos mais legais, vou pegar outro dos Beatles que acho que você vai gost... – era tarde de mais, o garoto já havia tirado o vinil do encarte e colocado na vitrola. No momento em que a agulha tocou na superfície preta fazendo seu primeiro barulho o coração do homem acelerou de uma forma que pensou estar tendo um ataque... o que já não era mais possível.

(...)

O intermediário (Parte 2)

Colocou-se em frente de uma pilha de vinis e começou a passar um por um, olhou para o lado e viu uma cabine que continha uma vitrola. Perguntou ao homem que estava ao seu lado na loja de vinis se podia pegar um vinil daquele e ouvir na cabine.  O moço apenas afirmou com a cabeça. O homem continha uma cara de concentrado e parecia ser de poucas palavras, olhava atentamente para cada vinil como se fossem livros, cada um com a sua singularidade e história. Pelo canto do olho ele viu o álbum que o menino havia escolhido para ouvir na cabine. Era o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Bands dos Beatles, o homem seguiu o garoto com os olhos até colocar o vinil na vitrola. Observou a cara do garoto ao ouvir a primeira faixa, era como se estivesse descobrido um novo mundo, ficou entusiasmado, aquela melodia era envolvente, seus olhos brilhavam.
O homem se aproximou com um LP em mãos, ele tinha uma jaqueta com os dizeres HATE nas costas, escrito a mão, um pincel e tinta.

- Garoto, esse álbum que você esta ouvindo foi influenciado por esse – o homem mostrou o Pet Sounds dos Beach Boys – acho que você vai gostar.
O menino olhou pra cima pois estava sentado e apanhou o vinil, analisou a capa, olhou pra cima novamente e quando foi agradecer:
- Obri... – o homem não estava mais ali.

Acabara de ouvir o álbum e logo colocou o outro, balançava a cabeça no ritmo das melodias suaves. No meio do álbum resolveu olhar para o relógio, ficou estupefato, seu coração batia rápido, estava tão mergulhado naquelas melodias e letras que tinha se esquecido da escola, colocou-se de pé em um súbito momento, mas percebera que era tarde de mais, naquela altura os portões já haviam se fechado. Perguntou-se o que diria a sua mãe, ela não permitiria tal irresponsabilidade, apesar de possuir apenas dez anos,  o cargo que os pais depositavam nele eram grandes. O vinil ainda estava tocando, e a melodia o acalmou, pensaria nisso mais tarde. Terminou de ouvir e juntou os dois vinis para colocar na pilha. Ao lado, novamente o homem olhava concentrado para um encarte preto com linhas tortas na cor branca.

- Gostei muito do álbum que você me indicou, obrigado – o menino sentiu-se na obrigação de agradecer pela experiência. O homem não fez sequer um gesto de que havia ouvido o que o garoto dissera. Cooper então pôs se a sair da loja de vinis, precisava pensar no que diria para sua mãe, pela primeira vez a idéia de mentir fora cogitada. Antes de chegar na porta ouviu um chamado:
- Garoto, espera... – O homem de preto o chamou, ficara encantado com a possibilidade de o menino ouvi-lo, porém, em seu âmago não havia mudado por conseqüência do que lhe ocorrera. O menino olhou para trás surpreso, pensava que o homem não queria conversas:
- Aonde vai? – Perguntou o homem.
-Pra casa, me distrai com a música e perdi a hora da escola, preciso dizer a minha mãe o que aconteceu – o menino parecia extremamente ingênuo assim como era.
-Às vezes é preciso mentir, para bens, não se martirize com isso, é apenas uma segunda natureza. – o homem disse em tom sábio.
-Nunca menti antes, não sei se consigo, mas fato é que meus pais são bem duros comigo em relação a estudo.
-Fique aqui até dar a hora de terminar as aulas e depois aja como se tivesse realmente ido, para confortar a sua mente, não perca mais à hora, ou estude em um horário extra, pode ser à tarde, faz frio e você não terá nada para fazer.

(...)

6 de fev de 2012

O intermediário (Parte 1)

Fazia frio, o inverno que normalmente era rigoroso desta vez não teve trégua e nem piedade. O frio profundo caiu com toda força sob a cabeça dos habitantes daquela cidade Industrial. Acordar de manhã para ir trabalhar não era de todo, uma tarefa fácil, ir à escola, lavar roupas, era difícil manter uma rotina naquela situação. Mas era preciso...

-RING, RING, RING, RI... – fazia o despertador vermelho até que foi interrompido por uma mão pequena que desejava tudo, menos ir acordar cedo naquele dia.

A idéia de sair da cama em temperaturas a baixo de zero era pavorosa. Assim como o frio, seus pais eram rigorosos, sua mãe logo veio verificar se o filho não voltara a dormir, sendo aquele seu maior desejo... Tomou um chá quente que sua mãe fizera com a alegação que iria esquentar seu dia. Saiu pela porta e de prontidão uma brisa lhe rasgou a face, fazia o tipo de dia que ele mais odiava, havia o sol, porém era muito frio e pra piorar ventava gelado.
Sua escola era algumas quadras dali, ia caminhando e odiava a rotina de ir pelo mesmo caminho todos os dias, sempre que não estava atrasado inventava novas rotas para sair da mesmice. Desta vez resolveu ir por uma viela extremamente estreita, que parecia uma fenda feita com tijolinhos, mais para um beco. Á frente havia a escolha da direita ou esquerda, não havia saída, uma bifurcação. Porém antes de pegar seu caminho alternativo do dia percebera uma portinhola ao lado de um café que ali tinha. O dono do lugar era um japonês que tinha a cara abarrotada pelo sono. Ao lado do café, a tal portinhola resplandecia uma luz suave vindo do interior. Instigado, imaginou o que teria ali, e sentiu-se desafiado, pois pensava que conhecia todos os lugares da redondeza.
Saindo da aula resolveu refazer o caminho, estava decidido que iria entrar na porta, se ali tivesse uma residência se desculparia e iria embora, ninguém iria pensar males de uma criança de dez anos. Tinha seu álibi. Chegando lá, percebera que a luz havia se apagado, mas era tarde de mais, a curiosidade havia lhe domado. Girou a maçaneta e empurrou, como manda o protocolo de manuseio as portas, estava trancada. Aah, não gostava de esperar... Pensou em perguntar ao japonês do café, mas decidiu que quando saísse para brincar, se saísse, voltaria aqui.
Quando era inverno, os dias acabavam mais rápidos, a tarde já era escuro, e com a escuridão vinha mais frio. Cooper resolveu desistir da idéia de ir brincar naquele dia.

 -RING, RING, RING, RING, RING... – o despertador era mais uma vez insistente, e o sentimento lhe tomava conta do corpo mais uma vez.

Arrumou seus materiais e dessa vez recusou o chá da mãe, não estava se sentindo muito bem. Pegou sua mochila em tons pastel que era bem quadrada e grande causando um efeito engraçado quando corria, balançando de um lado pro outro. Ao decidir que caminho iria pegar, resolveu repetir a dose do dia anterior. Entrou no beco e de longe viu uma luz verde em desfoque. Era mais forte que a luz de ontem, porém vinha do mesmo lugar. Com medo de acontecer como antes, resolveu entrar, como não havia tomado café da manhã, ainda tinha uns minutos salvos. Girou a maçaneta empurrou e a porta se abriu, a esquerda havia um balcão, e um senhor o olhou em tom de análise e sorriu.

- O que procura jovem rapaz? – disse o senhor de cabelos brancos vestido de lã.
- Eeer... Nada, só queria saber o que tinha atrás dessa porta – disse o garoto sem jeito.
- Pois bem meu caro, aqui é nada mais nada menos que um universo paralelo, uma válvula de escape, um lugar para se trabalhar o subconsciente e maximizar emoções.

O menino não havia entendido muito bem o que o velho queria dizer, o jeito estranho de falar e após terminar a sentença, sorrir deixava o garoto apreensivo.
- Ahn?!

O senhor sorriu e virou-se pegou um espanador e tirou o pó de uma folha que tinha imprimido a frase “ELES ESTÃO AQUI”. Olhou mais uma vez para o garoto e sorriu mais uma vez. O menino olhando pelo canto do olho com os olhos semicerrados achava aquilo muito estranho, porém colocou-se a ver o que continha naquele lugar. Os balcões pareciam aqueles que armazenavam legumes e verduras em feiras, porém no lugar de alimentos verdes havia encartes multicoloridos ou minimalistas. Logo entendeu que estava em uma loja de discos, nunca havia estado em uma antes porque as lojas do tipo existiam apenas no centro da cidade ou bairros mais afastados, e como não se deslocava para esses lugares freqüentemente não tinha acesso a tais lugares. Seu contato com a música era morno, ouvia o rádio quando saia de carro com seus pais e as vezes no intervalo da escola.

(...)