8 de fev de 2012

O intermediário (Parte 2)

Colocou-se em frente de uma pilha de vinis e começou a passar um por um, olhou para o lado e viu uma cabine que continha uma vitrola. Perguntou ao homem que estava ao seu lado na loja de vinis se podia pegar um vinil daquele e ouvir na cabine.  O moço apenas afirmou com a cabeça. O homem continha uma cara de concentrado e parecia ser de poucas palavras, olhava atentamente para cada vinil como se fossem livros, cada um com a sua singularidade e história. Pelo canto do olho ele viu o álbum que o menino havia escolhido para ouvir na cabine. Era o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Bands dos Beatles, o homem seguiu o garoto com os olhos até colocar o vinil na vitrola. Observou a cara do garoto ao ouvir a primeira faixa, era como se estivesse descobrido um novo mundo, ficou entusiasmado, aquela melodia era envolvente, seus olhos brilhavam.
O homem se aproximou com um LP em mãos, ele tinha uma jaqueta com os dizeres HATE nas costas, escrito a mão, um pincel e tinta.

- Garoto, esse álbum que você esta ouvindo foi influenciado por esse – o homem mostrou o Pet Sounds dos Beach Boys – acho que você vai gostar.
O menino olhou pra cima pois estava sentado e apanhou o vinil, analisou a capa, olhou pra cima novamente e quando foi agradecer:
- Obri... – o homem não estava mais ali.

Acabara de ouvir o álbum e logo colocou o outro, balançava a cabeça no ritmo das melodias suaves. No meio do álbum resolveu olhar para o relógio, ficou estupefato, seu coração batia rápido, estava tão mergulhado naquelas melodias e letras que tinha se esquecido da escola, colocou-se de pé em um súbito momento, mas percebera que era tarde de mais, naquela altura os portões já haviam se fechado. Perguntou-se o que diria a sua mãe, ela não permitiria tal irresponsabilidade, apesar de possuir apenas dez anos,  o cargo que os pais depositavam nele eram grandes. O vinil ainda estava tocando, e a melodia o acalmou, pensaria nisso mais tarde. Terminou de ouvir e juntou os dois vinis para colocar na pilha. Ao lado, novamente o homem olhava concentrado para um encarte preto com linhas tortas na cor branca.

- Gostei muito do álbum que você me indicou, obrigado – o menino sentiu-se na obrigação de agradecer pela experiência. O homem não fez sequer um gesto de que havia ouvido o que o garoto dissera. Cooper então pôs se a sair da loja de vinis, precisava pensar no que diria para sua mãe, pela primeira vez a idéia de mentir fora cogitada. Antes de chegar na porta ouviu um chamado:
- Garoto, espera... – O homem de preto o chamou, ficara encantado com a possibilidade de o menino ouvi-lo, porém, em seu âmago não havia mudado por conseqüência do que lhe ocorrera. O menino olhou para trás surpreso, pensava que o homem não queria conversas:
- Aonde vai? – Perguntou o homem.
-Pra casa, me distrai com a música e perdi a hora da escola, preciso dizer a minha mãe o que aconteceu – o menino parecia extremamente ingênuo assim como era.
-Às vezes é preciso mentir, para bens, não se martirize com isso, é apenas uma segunda natureza. – o homem disse em tom sábio.
-Nunca menti antes, não sei se consigo, mas fato é que meus pais são bem duros comigo em relação a estudo.
-Fique aqui até dar a hora de terminar as aulas e depois aja como se tivesse realmente ido, para confortar a sua mente, não perca mais à hora, ou estude em um horário extra, pode ser à tarde, faz frio e você não terá nada para fazer.

(...)

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